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No Dia do Índio o Campus Sertão tem motivos reais para comemorar

Integrantes do NEABI e alunos indígenas participantes do projeto

Tão importante quanto oportunizar o acesso ao ensino técnico e superior público e gratuito é oferecer meios que assegurem a permanência dos estudantes nos cursos. A chegada de um grupo de indígenas no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) -Campus Sertão trouxe à tona esta questão fundamental da educação. O Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas do Campus Sertão que já atuava no sentido de oportunizar o acesso de indígenas nos processos seletivos para os cursos do Campus, percebeu que era preciso fazer mais. E fez, desenvolvendo o projeto de Acompanhamento Pedagógico aos Estudantes Indígenas e Afro-brasileiros a partir do ano de 2013.

Graças ao projeto, o Campus tem muitos motivos para comemorar neste dia 19 de abril, Dia do Índio. Os índices de evasão caíram e a diversidade cultural está provocando uma mudança de atitude na Instituição.

Segundo a coordenadora que deu início ao projeto, a Técnica em Assuntos Educacionais Vanda Aparecida Fávero Pino, foi um aprendizado. O início das atividades foi com o ingresso de três indígenas em 2013. "Eles nos provocaram. Fomos percebendo as dificuldades que encontravam na mudança radical de deixar as famílias para vir morar e estudar no Campus. Fomos conversando sobre essas dificuldades e a pensar em fazer alguma coisa para auxiliá-los na adaptação à nova rotina de estudos. Não adianta oferecer acesso à educação se não oferecermos condições de permanência aos nossos estudantes", destaca, acrescentando que "Numa instituição de ensino temos que representar todos, constituir espaço para essa representação e entender os alunos nas suas diferenças".

O aluno indígena Raudinei Candinho, de 17 anos, ingressou no Campus em 2013 e acabou evadindo. Em 2015 ele retornou e hoje cursa o 2º ano do curso Técnico em Agropecuária integrado ao Ensino Médio. "O servidor Darci Emiliano foi divulgar o processo seletivo na minha escola na reserva de Ventarra em Charrua e eu fiquei com vontade de estudar no Campus, tive o incentivo dos meus pais, mas tive dificuldades em me adaptar da primeira vez. Não foi dificuldade de aprendizagem, foram as diferenças culturais, o choque de culturas que eu vivi. Eu ouvia muitas brincadeiras de mau gosto dos colegas e não suportei. Só que eu pensei melhor e a minha família me incentivou a retomar o curso. Era o que eu queria, me formar e poder utilizar o conhecimento para melhorar a vida da minha família, então eu voltei pela minha família", assegura.

Com o projeto melhor desenvolvido, a segunda experiência de Raudinei foi positiva. "Desta vez eu não ouvi as mesmas brincadeiras dos colegas, pelo contrário. Eu converso com todos, gosto da turma, das aulas, tenho um bom relacionamento com os colegas e professores, estou entendendo melhor as matérias e consigo expressar melhor minhas dificuldades. O projeto me ajudou muito nisso. Hoje eu consigo fazer os trabalhos todos e evoluí no aprendizado. Eu acho que o projeto já mudou a realidade do Campus. Eu respeito os colegas e eles me respeitam", conta.

Vanda salienta que "existe muito preconceito, principalmente pelo fato da cultura indígena incorporar hábitos de outras culturas. Mas isso é uma consequência do mundo globalizado. Tem pessoas que acham que o índio não pode ter carro, celular ou viajar de avião por exemplo, acontece que todas as culturas se dinamizam. Comumente passamos a acreditar apenas no que ouvimos falar na sociedade "sobre" o indígena, mas é necessário uma mudança de postura... precisamos oportunizar espaços em que possamos ouvir o que o indígena tem a dizer sobre si, a sua realidade, suas vivências e cultura".

O Campus Sertão tem hoje 20 estudantes indígenas (19 kaingang e um guarani). Dez cursam o Técnico em Agropecuária na modalidade integrado ao Ensino Médio, sete no cursam o Técnico em Manutenção e Suporte em Informática integrado ao Ensino Médio, um cursa Agronomia e dois Licenciatura em Ciências Agrícolas. Os indígenas alunos do Campus são oriundos das terras indígenas de Votouro no município de Benjamin Constant, de Guarita em Tenente Portela, de Ventarra em Erebango, de Ligeiro em Charrua, de Campo do Meio em Gentil, de Serrinha entre Três Palmeiras e Constantina e de Mato Preto em Getúlio Vargas.

O retorno de estudantes indígenas ao Campus mais de 20 anos após o último indígena ter se formado no curso Técnico em Agropecuária é reflexo do trabalho do NEABI segundo o vigilante do Campus que integra o núcleo, Darci Emiliano, que também é de origem indígena (kaingang). Ele visita as terras indígenas para divulgar o processo seletivo, conversa com pais e alunos nas escolas das comunidades e é uma referência para eles. Nas visitas, percebeu a necessidade de qualificar os professores das escolas das reservas para melhor preparar os alunos para o futuro, para que prossigam os estudos com condições de igualdade.

Darci é da reserva de Cacique Doble e formou-se no curso Técnico em Agropecuária do Campus em 1989. Em 1995 retornou à instituição como servidor após a aprovação em concurso público. "Nesses 21 anos, de 1995 até agora só comecei a ver indígenas procurando ingressar no Campus novamente depois do início das atividades do NEABI. Sempre busquei sensibilizar os servidores da importância de oportunizar o acesso aos indígenas, pois estamos numa região onde se concentram várias reservas", expõe.

Darci comenta que o ensino pode oportunizar uma melhoria na qualidade de vida faz famílias indígenas muito significativa. "Eu venho da realidade das reservas, conheço os problemas e as dificuldades que as famílias indígenas precisam superar dia após dia, privadas até das necessidades básicas. As políticas públicas em vigor no país já mudaram bastante esta realidade, mas a dificuldade dos indígenas em permanecer no Campus é bem maior do que a dos demais estudantes", conta.

Sobre o preconceito, Darci, pontua que "O julgamento não deve acontecer. As culturas do índio e do branco são muito diferentes, o objetivo de vida do indígena é diferente e deve ser respeitado. É como disse o kujá Augusto Ope da Silva, 'nós indígenas somos como uma árvore, dessa árvore os invasores cortaram folhas, galhos, troncos, mas esqueceram de cortar nossas raízes, são essas raízes que aqui estão brotando e gerando novas vidas verdes e fortes'".

 

Como funciona

De acordo com o coordenador do NEABI do Campus Sertão, Rodrigo Ferronato Beatrici, o projeto buscou inspiração em ações semelhantes na FURG e na UFRGS.

Com a transformação em projeto de ensino em 2015, cada estudante indígena passou a contar com um monitor, ou seja, com um aluno bolsista, de preferência da mesma turma, que realiza o acompanhamento pedagógico supervisionado pelos membros do NEABI.

Os alunos monitores recebem bolsa de ensino e auxiliam os indígenas nos estudos, dirimindo dúvidas, alertando para a entrega de trabalhos e a agenda de avaliações. "O acompanhamento pedagógico obedece a três parâmetros: ao desempenho acadêmico nas disciplinas; à preferência de que os monitores frequentem as mesmas turmas dos indígenas, porque estão vivenciando a mesma realidade do cotidiano escolar e podem auxiliar na questão de organização dos estudos que é uma dificuldade para os indígenas; e ao vínculo afetivo, pois é muito importante que se consiga estabelecer uma afetividade entre os colegas e entre monitores e indígenas para assegurar o sucesso nesta relação pedagógica", evidencia Rodrigo.

A adesão dos alunos ao projeto é voluntária. De acordo com o coordenador do NEABI do Campus Sertão, Rodrigo Ferronato Beatrici, o projeto não acompanha somente os alunos, mas promove um diálogo entre estes alunos e os professores e entre o Campus e as famílias. "Quando iniciamos as atividades no início do ano letivo convidamos as famílias dos alunos indígenas para participar de um encontro no Campus sobre o projeto. Explicamos seu funcionamento e pedimos o apoio dos pais e familiares no incentivo aos estudantes e na própria cobrança sobre os estudos", conta.

Esta relação é fundamental, pois a família é um núcleo muito importante para a cultura indígena. Os integrantes do NEABI que participam do projeto informam periodicamente às famílias quanto ao desempenho acadêmico dos alunos, à frequência e às relações e comportamento dos filhos no Campus. Segundo Darci, o projeto está obtendo sucesso muito em função da relação estreita com as famílias. "Se o aluno não vier mais para a aula, nós vamos até a reserva investigar os motivos. Temos que trabalhar em conjunto, numa parceria constante com os professores, as famílias e as lideranças das reservas", evidencia.

Para o coordenador do NEABI, se o projeto não tivesse sendo realizado o índice de evasão de indígenas que é alto seria ainda maior. "O acompanhamento pedagógico é essencial e o resultado deste trabalho pode ser percebido no aumento dos casos de aprovação", aponta.

A adaptação dos estudantes em geral à nova rotina de estudos no Campus não é fácil, principalmente para os indígenas que vêm de uma cultura diferente. Nos cursos técnicos integrados, os alunos saem muito cedo de suas casas para morar em alojamentos distantes de suas famílias com outros jovens que eles nunca viram até então. A vivência se torna complicada, um desafio. "E ainda são 27 disciplinas, vários professores diferentes, locais e salas diferentes para cada disciplina e um espaço físico enorme", acrescenta Rodrigo.

Conforme o monitor e bolsista de ensino do projeto, o estudante do 3º ano do curso Técnico em Agropecuária integrado ao Ensino Médio, Anderson Dalzotto De Nardi, a convivência com os colegas indígenas ultrapassou as relações escolares. "Eu e o aluno que eu monitorava nos tornamos amigos. Ele já passou o final de semana na minha casa e o projeto mudou completamente meu modo de ver a cultura indígena e até a visão dos meus pais. Quando a gente não conhece a realidade de perto, costumamos ter preconceito e hoje eu posso afirmar que esse preconceito não existe mais. Somos todos iguais. As pessoas são muito preconceituosas, dizem que índio não faz nada, mas quando a gente começa a conviver e cria uma relação de afinidade com os indígenas percebe que eles fazem a mesma coisa que nossas famílias no interior: plantam e criam animais. É uma experiência de vida que eu não imaginava ter no Campus. Aprendi a respeitar as culturas diferentes. Hoje se alguém falar mal de um indígena na minha frente eu defendo", enfatiza.

Enquanto o edital para os projetos de ensino em 2016 não é finalizado, Anderson continua realizando as atividades de monitoria como voluntário. "Auxilio os indígenas na disciplina de matemática nas segundas das 19h30min às 20h30min e estendo a todos os colegas que têm interesse nas quartas neste mesmo horário. Eu não pretendo parar. O projeto me mostrou que ajudando os colegas eu também estou estudando e me preparando melhor", conta.

Anderson contribui com o projeto desde 2013 à convite da Técnica em Assuntos Educacionais Vanda Aparecida Fávero Pino.

 

O NEABI

O início das atividades do Neabi no Campus em 2009. O Campus Sertão foi o primeiro do IFRS a constituir o núcleo que hoje é composto por cinco técnicos administrativos e 13 docentes.

O NEABI está representado na Comissão Permanente de Seleção (COPERSE), na Comissão de Gerenciamento das Ações de Extensão (CGAE), na Coordenação da Assistência Estudantil, na Comissão de Estudos sobre o Projeto Pedagógico do Curso Técnico em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio e no consórcio dos NEABs.

O principal projeto do NEABI do Campus Sertão é o de Acompanhamento Pedagógico aos Estudantes Indígenas e Afro-Brasileiros, embora o núcleo desenvolva várias outras atividades. "O acompanhamento pedagógico não está nas atribuições do núcleo, mas de se o NEABI não fizer, quem vai fazer? O projeto só dá certo porque as pessoas se envolvem, se doam, na militância em prol da causa", avalia o coordenador.

O NEABI também está representado nos conselhos de classe para lembrar aos professores das conquistas e avanços dos estudantes indígenas na hora das avaliações. "O esforço deles precisa ser reconhecido", destaca.

Para 2016 estão programadas a realização de oficinas da língua kaingang no curso Técnico em Manutenção e Suporte em Informática integrado ao Ensino Médio e oficinas sobre educação em direitos humanos nos seminários integradores do mesmo curso.

Além das oficinas, o NEABI também planeja realizar um encontro de formação sobre cotas com estudantes e servidores do Campus, a organização de notícias e outros programas referentes à temática dos negros e indígenas no projeto de extensão da Rádio Conexão IF e atividades comemorativas e reflexivas na semana dos povos indígenas e da consciência negra.

"Estamos sobre um sítio arqueológico indígena subterrâneo na área do Campus, referente aos kaingangs. Precisamos construir um espaço de formação e reflexão dentro da temática indígena", salienta o coordenador do NEABI Rodrigo Beatrici.

 

Galeria

Integrantes do NEABI e alunos indígenas participantes do projeto Projeto de Acompanhamento Pedagógico funciona através de monitoria

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